Imagine se você tivesse vivido 1.200 anos antes de Cristo na China ancestral. Pode imaginar?
Seu nome seria Yu. LinYu. O quarto filho de uma família de nove irmãos. Seis rapazes e três moças. Você viveria numa aldeia de pescadores num lindo vale chamado Changjiang e trabalharia com sua família na produção de pequenos, mas reforçados barcos de pesca.
Na época que imaginamos sua história você teria apenas 18 anos, mas era forte e ágil como um touro. O mais robusto dos irmãos. O terceiro entre os homens.
Naqueles tempos prevalecia um patriarcado impiedoso, onde as mulheres eram pouco mais que animais de procriação e satisfação dos desejos sexuais masculinos. Não podiam sair das residências para ajudar na subsistência e desta maneira as famílias tratavam de se livrar delas, o mais rapidamente possível, através de casamentos arranjados.
A morte do pai num acidente não foi chorada por ninguém. Era um verdadeiro tirano com todos e, em especial, com as meninas, nelas descarregando todo e qualquer aborrecimento do dia a dia. Socos e bofetadas eram frequentes. Com seu desaparecimento, Lin Deng, o violento e cruel irmão mais velho, tratou logo de transformar suas vidas num inferno. Surras, gritos e choros se transformaram em regra, sendo contido apenas pelo bondoso Lin Xi, o irmão do meio, que sempre se interpunha e impedia as agressões quando estava em casa.
Xi cobrava de Yu uma reação contra o mais velho, mas este lhe dizia que aquilo não era responsabilidade dele.
“Então por que razão você nasceu aqui e agora? ” _ lhe perguntava indignado _ “Você é o mais forte. Pode detê-lo! ” _ quase implorava.
Yu e Deng trabalhavam na oficina da casa enquanto Xi viajava bastante com outros parentes, consertando os barcos de toda região. O primeiro filho aproveitava sua ausência para recomeçar as torturas diárias. Yu a tudo assistia ou ouvia, mas, como sempre, fingia não notar. Continuava com seu trabalho ou então saía para conversar com os amigos e primos no cais. Suas irmãs eram alvo de chacota, pois tinham os rostos deformados por cicatrizes. Ele apenas ria junto.
Xi não sabia o que acontecia em sua ausência. O irmão não lhe contava e as mulheres não tinham voz. Os outros três irmãos eram muito pequenos ainda. A mãe implorava ajuda de Yu com os olhos, mas ele a ignorava, pois já havia decidido que cuidaria apenas de sua vida. Não tinha nada a ver com aquilo. Arranjaria uma boa mulher e se casaria, saindo dali.
Entretanto, com o tempo, Deng começou também a violar sexualmente as moças e todas engravidaram, inclusive a de 13 anos. Numa noite, ao ouvir gritos abafados, Yu chegou a presenciar um desses ataques e também se calou, mesmo sabendo que aquilo destruiria a vida delas.
“Seriam mesmo violentadas pelos maridos um dia. Muitas e muitas vezes. Não é para isso que servem as mulheres? Então não faz muita diferença. ” _ pensava para se isentar de qualquer culpa, enquanto tocava sua vidinha.
No retorno de uma de suas viagens Xi se deparou com a situação e se desesperou, não sendo difícil para ele concluir quem seria o autor de tais crimes. Os irmãos discutiram asperamente, terminando por ser esfaqueado e morto, levando consigo toda e qualquer esperança de felicidade das infelizes meninas.
Como resultado Deng contou aos familiares que matara o irmão em defesa da honra das irmãs, acusando-o dos estupros. O avô mandou que os bebês ao nascerem fossem entregues às primas casadas, sendo que a mais nova morreu no parto junto com seu filho. A mais velha suicidou-se pouco tempo depois e a do meio, assim como a mãe, desistiu de viver, morrendo ambas de doenças pulmonares no primeiro inverno, sem procurar tratamento.
Yu continuou com seus planos. Casou-se com uma mulher bonita e ganhou do avô recursos para abrir um pequeno negócio em outra vila, alegando que não suportava mais viver naquele lugar de tantas tragédias. Nunca mais voltou, desinteressado do destino dos três irmãozinhos menores.
E viveu bem até quase os cem anos. Sem culpa, remorsos ou preocupações.
Como você pode ver, se tivesse nascido no vale do Changjiang, você teria os mesmos defeitos que as pessoas têm hoje. Sabemos que os dois principais defeitos de nossa humanidade, que parecem só trocar de fantasia no decorrer do tempo, são o egoísmo e a prepotência.
Lin Xi foi egoísta, sempre escalando seus próprios condicionamentos e expectativas para justificar sua omissão. Seu condicionamento dizia respeito ao papel da mulher naquela sociedade e sua expectativa era, literalmente, casar e fugir. Não percebia que também tinha problemas, como a indiferença, a falta de compaixão, a covardia e, principalmente, o egoísmo.
Trocando as épocas e os condicionamentos, diminuindo talvez o nível das tragédias que causamos, continuamos muitas vezes a fazer as mesmas coisas. Fingimos que os problemas alheios não são nossa responsabilidade. Não interferimos de maneira alguma no universo. Nos tornamos muitas vezes indiferentes às dores dos outros e priorizamos sempre nossas próprias vidas e as expectativas que criamos. Não temos sequer compaixão.
Desde tempos imemoriais esta humanidade se acostumou a andar sempre pelos mesmos caminhos, com atalhos individuais aqui e ali, mas reagindo sempre da mesma maneira frente às dificuldades do dia a dia.
Lin Yu reagir como fez seria até compreensível, mas nós, três milênios depois, reagirmos da mesma maneira, não faz mais sentido.
E Lin Deng? Bem, também continuou com sua vidinha, embora seus problemas fossem outros. Lembraremos dele qualquer hora.
Resumo:
– um dos principais defeitos da humanidade é o egoísmo, pois ele é um dos causadores das tragédias que assistimos hoje em dia, impassíveis ou não, desde os sofrimentos caseiros até os crimes de guerra.
– o egoísmo nos faz pensar apenas nas nossas necessidades, desejos e expectativas; o outro que se dane, pois não é problema nosso.
– o egoísmo nos carrega para a indiferença e, muitas vezes, para uma cegueira emocional, onde nossa única visão é nosso próprio umbigo.